entrevista: camilla coutinho

por Cantão

Ao lado da editora Anna Dantes e do botânico Alexandre Quinet (pesquisador do Jardim Botânico do RJ), a fotógrafa Camilla Coutinho registra um trabalho intenso com o povo Huni Kuin do rio Jordão no Acre.

O trabalho dela começou durante a série de expedições para o desenvolvimento e edição do livro “Una Isi Kayawa – o Livro da Cura”, do movimento sem fins lucrativos Floresta Viva em Mim, que engloba uma série de projetos sustentáveis conectados com a natureza e os povos da floresta.

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Como já falamos por aqui, desenvolvemos uma série limitada de guarda-chuvas desenhados pela artesã Ayani Kaxinawá em apoio ao movimento. Em maio de 2014, duzentas unidades foram distribuídas em uma ação inédita (e emocionante!) para as mulheres das 32 aldeias do rio Jordão.

Todos os cliques foram registrados por Camilla, que tem vivência e uma história linda com os Huni Kuin. Ela também produziu quatro fotos que viraram t-shirts com silks especiais na nossa coleção cápsula.

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Para saber mais sobre este projeto tão incrível e comemorar o Dia do Índio (19/04), conversamos com ela. Vem ver:

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Há quanto tempo você está envolvida no projeto do Livro da Cura? Conta como tudo começou.

Tudo começou em 2010 a convite do Instituto Guardiões da Floresta — que realiza diversos projetos com os povos do Acre, como Huni Kuin e Yawanawa. O pajé Agostinho Ika Muru tinha esse desejo de fazer um livro sobre a sabedoria ancestral do povo dele, de curar através das plantas, para que isso ficasse registrado para os mais novos nunca perderem esses ensinamentos.

Até hoje esses ensinamentos eram passados de forma oral, mas Seu Agostinho sentiu a necessidade de fazer esse registro, justamente para não correr o risco dessa sabedoria ir embora com os anciões que iam morrendo e levando com eles a cultura. Esse sonho uniu um monte de gente especial que sentiu a importância de compartilhar essa sabedoria.

Foi então que o pessoal do Instituto se uniu ao cacique Siã Huni Kuin, que levou o projeto ao Jardim Botânico — que trouxe a Dantes Editora para realizar lindamente esse livro. Foi uma grande soma, que realizou em várias etapas o sonho do pajé Agostinho.

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Fala um pouquinho mais sobre o processo criativo do livro.

O processo criativo foi acontecendo durante as experiências dentro da mata.
Eu acompanhava os pajés nas expedições em busca das plantas, e ao observá-los fui entendendo aquela relação profunda com as plantas. Para eles, elas são como pajés.
São espíritos poderosos, muito antigos e de muita sabedoria. Eles cantavam para elas, pediam permissão para usá-las.

Então fui entendendo que existia uma conexão muito forte ali. No início, foi difícil encontrar uma linguagem, mas depois junto com as informações do Alexandre, os toques da Anna e a vivência tão profunda com os pajés, fui encontrando um caminho para conseguir captar uma imagem que trouxesse todo o encanto daquela verdade para virar esse material tão significativo.

Sinto muito amor por esse projeto porque ele transformou minha vida, me abriu um olhar diferente para minhas relações tanto interiores, como minhas relações com o mundo. Me trouxe experiências profundas e inesquecíveis.

Foi lindo, mas não foi fácil. Trabalhar na floresta exige muito. Muita energia, muita atenção, muito desapego, muita disposição. Fiquei muito tempo lá, aconteceram muitas coisas mágicas e, ao mesmo tempo, extremamente desafiadoras. Isso me fez ficar mais próxima a eles — especialmente da família do pajé Agostinho.

Infelizmente no meio do processo, o pajé Agostinho faleceu inesperadamente. Eu estava lá quando ocorreu e foi impactante. Mas isso não fez a gente parar. O dono desse sonho tinha partido, mas seguimos devagarinho. Hoje sinto que tudo aconteceu no tempo certo.

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Sua série fotográfica virou a mostra “O sonho que cura” no Parque Lage, no ano passado. Como é ter suas fotos ilustrando um livro tão precioso não só para a cultura indígena, como para toda a humanidade? 

Fiz esse trabalho sem nem imaginar o que aconteceria. Não vinha na minha cabeça que eu estava realizando algo tão precioso. Só entendi a dimensão do projeto quando vi o livro pela primeira vez na minha mão.

Encaramos desafios diários, sem criar nenhuma expectativa e sem saber realmente como seria. O lançamento oficial foi lá na aldeia onde vive a família do Pajé Agostinho. Entregar o livro para a família dele, depois de 3 anos de trabalho intenso, foi uma emoção muito forte, fico muito honrada por ser um instrumento de realização desse legado.

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Todos os olhares foram registrados de maneira bem natural. Como foi sua vivência com eles?

Passei muito tempo com eles na floresta, dormindo na casa deles, comendo junto. Sendo cuidada por eles. Ouvindo histórias, contando as minhas. Fui virando da família. Fomos confiando um no outro e isso fica bem nítido nas imagens. No início tinha medo, vergonha, e as fotos saíam sempre bem distantes. Depois fomos ficando mais próximos, e virando uma coisa só.

É de uma profundidade muito grande estar lá sentindo o vento que bate, dormir cedo, tomar banho de rio, ouvir o canto dos pássaros, ver as crianças brincando na chuva, sair da pressão e do caos urbano e entender de verdade a importância da natureza… Tudo isso vem pra gente, pra bem dentro do coração. E no meu caso, dá pra notar nas fotos que faço lá. Eu aprendi a me tornar parte da floresta, assim como eles.

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E os próximos passos?

Nosso sonho agora é fazer os próximos livros com fotos dos próprios Huni Kuin. A ideia é deixar os equipamentos fotográficos com eles e ensiná-los a usar para que eles produzam a maior parte do material.

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Fala um pouco sobre a recepção das mulheres durante a entrega dos guarda-chuvas:

Foi muito divertido! Elas ficaram encantadas. As mulheres usam os guarda-chuvas quando está muito sol e quando chove. Elas usam todos os dias, por mais estranho que pareça. Senti que abriu um universo de possibilidade para elas também. Elas são muito criativas!

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O projeto só foi possível graças a essa imersão profunda e a entrega generosa de todos os envolvidos. O que você leva desta vivência com o povo Huni Kuin?

Os povos da floresta me ensinam muito sobre a simplicidade, respeito, gratidão, alegria, amor. Dar valor verdadeiro às coisas da terra e usar somente o necessário.

Toda vez que volto da floresta fico uns dias de resguardo até conseguir voltar ao dia-a-dia por aqui. Sair na rua e ver o trânsito, as notícias, a política, as vozes enfurecidas, os abusos, os medos… dói lá no fundo.  Ao mesmo tempo em que sinto isso tudo, sinto também uma força misteriosa de resistência e um amor profundo que me diz que podemos mudar tudo.

Fico feliz em ver, cada dia mais, mesmo que lentamente, mais gente se abrindo para essa realidade simples e verdadeira dos povos da floresta. Eles passam muitas dificuldades… e seguem como um povo humilde, que tem essa energia do amor muito forte vibrando, de quem sabe dividir o pouco que tem.

Levo uma gratidão imensa por ter a oportunidade de conhecer essa cultura do meu país, e me sentir parte dela. Só tenho a agradecer a todos os parceiros (principalmente a Anna e o Alexandre, meus companheiros nessa missão) que trabalham nesse movimento e ao Cantão, que está nos ajudando a tornar de alguma forma visível e acessível esses pequenos passos que damos juntos com os povos que vivem na floresta!

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Gratidão é pouco para definir o que a gente sentiu ao fazer parte desse projeto!
Por isso, damos continuidade a ele através da venda solidária na coleção Navegar — ou seja, a cada compra de um guarda-chuva é revertida outra unidade às mulheres da tribo Huni Kuin.

Dá o play para assistir como foi a entrega dos guarda-chuvas e sentir essa energia tão boa!

Clique aqui para conhecer a nossa coleção cápsula Floresta Viva em Mim e celebrar junto com a gente este movimento. Viva o Índio!