Cultura 6 poemas, um convite

post por Fabiane Secches

Cultura 6 poemas, um convite

Cultura, Inspirações

Convidei a escritora Ana Rüsche para escolher alguns de seus poemas favoritos que tenham sido escritos por mulheres. “Fazer listas, editar, selecionar. Mal penso numa e digo, puxa, mas faltou esta! Mal lembro daquela e me corrijo, será que esta não seria melhor? Tarefas ambíguas, pois o mundo da poesia é cheio de afetos”, respondeu Ana.

Então propôs “um passeio cheio de bifurcações e encruzilhadas por poetas e poemas que marcaram minha trajetória e maneira de sentir. Sugiro que leiam os poemas mais de uma vez. Com calma, uma busca por aventuras. Ler um poema é fazer uma leitura e retornar, ler uma vez mais, quase um movimento de onda lambendo a areia. Apenas se compreende um poema quando se começa mais uma vez e mais uma vez”.

Abaixo, segue a pequena lista (ou o pequeno passeio) de Ana, com seus comentários junto das indicações:

  1. Marize Castro (Natal, Brasil, 1962)

Não sei quando comecei a ler a Marize Castro exatamente. Sei que foi um momento no qual procurava novos ares da poesia contemporânea e seu “Esperado Ouro” em 2005 foi um sopro fresco que chegou envelopado em pardo lá em casa. Nunca superei completamente alguns versos como estes: “Porque me abasteci, estou de volta./ Trago comigo coisas abandonadas./ Coisas que os homens jogaram fora:/ placentas, gânglios, guirlandas, guelras”. Escolhi um poema que explora a brevidade, quase um aforismo com exercício bonito de condensação de imagens, uma marca de sua forma de pintar poemas.

Esquecimento

Quem me inundou esqueceu de orar para as estrelas.

  1. Maria Luíza Mendes Furia (Caçapava, Brasil, 1961)

Outra mulher que li nas minhas primeiras escavações sobre a poesia contemporânea foi a Maria Luíza Mendes Furia. Publicou bastante, em jornais, revistas, antologias. Seu livro “Vênus em Escorpião” (2001), o qual me marcou, recebeu recentemente nova benfazeja edição pela Editora Patuá. Este poema significa bastante para mim, as imagens de mar. Esta ideia do fazer infinito, entretanto, cheio de sentido que é escrever poemas. Você não ouve ondas aí?

POEMA-1

Esculpir conchas

tão delicadas

e diversas

é um segredo do mar

e dos moluscos.

Fazer versos

como quem esculpe conchas

um desafio interminável

ininterrupto.

 

  1. Nurit Kasztelan (Buenos Aires, Argentina, 1982)

Não poderia deixar de citar as escritoras de língua espanhola latino-americanas que leio. Escolhi a Nurit Kasztelan, pois creio que com seus muitos projetos de publicação e dedicação quase integral à poesia representam esta nova geração tão animada. A Nurit viaja bastante. Embora residente em Buenos Aires, dedica tempo a conhecer outros países e projetos editoriais que importa para sua casa. É lá que está a Livraria MiCasa: uma livraria preciosa que se situa dentro da casa de Nurit, com direito a uma gata felpuda para te dar as boas-vindas.

Sua poesia é marcada por poemas narrativos. Por conta desta argentina, comecei a ler nossa brasileira Adélia. Faço parte de um projeto para traduzir “Lógica de los accidentes” (2013) ao português. Assim, compartilho um dos poemas.

A moenda

O único que quero

é provocar

um estado de tensão

no qual as coisas se rompam

e não haja ruído.

Funciono como as plantas,

se aspiro demais

me afogo.

No México me contaram

de uma mulher

a medida que moía o milho,

seu braço ia desaparecendo.

Sou como essa mulher

que mói a si mesma

me escrevo

e desapareço.

 

  1. Jô Freitas (Paulo Afonso, Bahia, 1988)

Falando de mulheres que viajam pela poesia e na sua busca, numa viagem de carro, conheci a Jô Freitas. Entre Brasil e Peru, ela promove o projeto “Mulheres em Travessias“, uma ação em que coloca a serviço a poesia para constelar a história de vida de mulheres batalhadoras, muitas migrantes nordestinas que vieram a São Paulo, muitas mulheres negras. Sendo atriz, difícil reconstituir nas palavras sua força no palco, a altivez na voz que empresta para tantas. Seu livro ainda não está no papel, logo virá, está nos ares.

A Jô representa para mim um caminho imprescindível nas novas inspirações poéticas da geração, nascida nos saraus e erguida na garganta. A palavra como uma fala pelo reconhecimento de ancestralidades que precisam ser ouvidas. Bem, dessa vez será bem difícil não prestar atenção nestes versos. Apresento um vídeo para ficar com o refrão na cabeça por dias.

  1. Ana Cristina César (Rio de Janeiro, Brasil, Brasil, 1952)

Termino com a Ana C. Gosto tanto deste poema que acabei por usar muito em aulas. Tenho prazer em mostrar a beleza da construção deste texto – veja como ela usa verbos e substantivos, não é incrível? Além de poeta, foi tradutora e crítica, creio que neste poema é possível ver um exímio controle na escolha de suas ferramentas. Sobre a Ana Cristina já se escreveu muito e espero que escrevam muito mais, uma poeta que pisou firme na história da literatura brasileira. Para mim, é a ponte entre algum concretismo paulista e a poesia marginal carioca. Quem sabe uma porta de entrada para se gostar de poesia.

Tenho uma folha branca

e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca

 e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma vida branca

e limpa à minha espera.

*   *   *

Ana complementa:

Um caminho é quase um erro. Espero que possam encontrar encruzilhadas nesse percurso para suas leituras. Gostaria ainda de ter mostrado poemas da Lubi Prates e da Lilian Aquino, fica aqui minha anotação para futura rota. Poesia faz bem ao sistema cardíaco. Há bem poucas contraindicações. Pratique.

Deixo um poema velhinho que dialoga com estas mulheres que traçam suas linhas nas minhas“.

A Ceramista

agora já são cinco privês

antes era um prédio respeitável

escavo escadas ante a mudez

do elevador, guilhotina pichada

no pó suspenso no ar

catedrais de coisas abandonadas

e lá dentro chafurdo com minhas duas

mãos nas peças de cerâmica

e como parteira tiro do barro

um caco, um vaso, um sonho, um sopro

*   *   *

Ana Rüsche é escritora, possui 4 livros de poesia publicados, sendo seu primeiro publicado no México (“Rasgada”, 2005) e o segundo mereceu reedição (“Sarabanda”, Ed. Patuá). Também um romance, “Acordados” (2007). Seu último livro é “Furiosa” (2016). Ministra oficinas de escrita criativa, edita e publica os próprios livros.  Se quiser dar uma espiada, suas obras estão disponíveis para download em www.anarusche.com.

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