Crônicas entre dois amores [por fabi secches]

post por Cantão

Crônicas entre dois amores [por fabi secches]

Crônicas, Convidados

Morei no Rio de Janeiro por pouco tempo, mas foram seis meses que mudaram minha vida. Todos os estereótipos cariocas que me foram anunciados falharam. O carioca espertalhão, que adora levar (e contar) vantagem. O carioca preguiçoso, que não quer saber de trabalhar. O carioca vaidoso, que tem no culto ao corpo uma religião. O carioca que…

Presumir que se conhece alguém antes de se conhecer, através de lendas urbanas, de velhos preconceitos. Qual é o ganho?

Já o convívio desarmado pode nos surpreender tanto.

Quando me mudei para o Rio, fui comprar plantas para o meu novo apartamento. Parei em um desses quiosques de rua que funcionam como pequenas floriculturas no meio da cidade. Escolhi uma Primavera (que no Rio é chamada de Bouganville — a primeira de muitas diferenças de vocabulário que eu iria encontrar).

Na hora de pagar pelas plantas, onde estava a minha carteira? Em outra bolsa, que havia ficado em casa. Claro que os cariocas que adoram levar vantagem, desconfiados como são, não iriam oferecer que eu levasse a planta e passasse para acertar depois. Claro que não ouviria: “Não tem problema. Você disse que mora aqui perto, não é? Pode trazer para a gente depois.”

Mas eu ouvi.

Minha primeira relação no Rio foi essa. Uma relação de confiança. Ainda assim permaneci receosa com a cidade. Pouca coisa funcionava antes das 10h da manhã. Eu, que havia aprendido a medir tudo pela eficiência paulistana, estranhei bastante no começo. Os cariocas, claro, não queriam saber de trabalho duro logo cedo. Estavam mais ocupados nas praias, caminhando, jogando bola com os amigos ou dando um mergulho de manhã. Tomando café da manhã nas lanchonetes, correndo em volta da Lagoa ou andando de bicicleta à beira mar.

Aquele lazer soava como um insulto — como assim no meio da cidade? Como assim no meio da semana?

Teria eu encontrado dois estereótipos de uma só vez? O carioca preguiçoso e o carioca vaidoso eram uma pessoa só. Alguém que preferia se divertir na praia a fazer a economia girar?

Curiosamente, a economia ia bem, obrigada. Mesmo que poucos emails e telefonemas fossem respondidos antes das 10h ou depois das 17h.

Não demorei para entender que boa parte dos estereótipos que criamos dos cariocas é por que não os compreendemos. Estamos tão próximos: menos de 1h de avião, menos de 450 km de carro — e mesmo assim um abismo nos separa.

Os preconceitos de lá para cá também existem: se carioca trabalha para viver, Paulista vive para trabalhar. Paulista não sabe se divertir. Gabam-se de ser o centro econômico do país, de virar noites em claro. Gabam-se da tristeza e da solidão.

Nunca vi graça nesse embate e me sinto entre dois amores: mudei para São Paulo aos 17 anos quando passei no vestibular. Mudei para o Rio aos 30 quando tive uma oportunidade de emprego que me pareceu valer a aventura. Voltei para São Paulo pouco tempo depois — mas nunca mais fui a mesma. Após essa vivência, posso dizer que minha cidade ideal não é nem uma nem outra. Seria, talvez, um pouco de cada. Escrevo isso e quase me arrependo pelo clichê. Quantas pessoas já disseram o mesmo, com palavras bem mais bonitas?

Não importa. Que seja clichê. Eu não sou mesmo uma pessoa muito original.

Eu nunca seria carioca — ir de biquini à padaria para mim é licença poética de férias, em praias esquecidas. Mas tampouco serei paulistana, orgulhosa de empresas em arranha-céus e de pessoas virando noites em suas janelas.

Sou mineira e gosto dessa posição de neutralidade. Eu me misturo o quanto posso, mas permaneço sendo muito mais uma observadora do que uma personagem. Não importa que eu tenha aqui ou ali um endereço fixo, com Primaveras ou Bouganvilles na varanda. Sou estrangeira em ambas.

Do Rio, no entanto, trouxe comigo um aprendizado que só se fortaleceu com o tempo: a certeza de que a culpa capitalista — tão própria dos paulistanos — não me cabe. Os passeios, a natureza em volta, o simples não fazer nada. Nunca sou tão produtiva como quando vivo bem. Com mais referências, com mais inspiração, espaço e fôlego.

Viver bem, isso sim, é o que faz a boa economia girar.Hoje estou remando contra a maré de carros, tentando fazer o mesmo nessa São Paulo hostil, cinza e também maravilhosa.

O Rio de Janeiro me ensinou a viver de uma forma mais bonita aonde quer que eu vá. Então nunca será demais repetir: muito obrigada.

ilustração por Thiago Thomé | Liquidpig

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